Mistérios das Duas Irmãs, O(The Guard Brothers)
Emily Browning, Arielle Kebbel, David Strathairn, Elizabeth Banks, Maya Massar, Kevin McNulty.
Charles Guard, Thomas Guard
2009
EUA
87 minutos

Dos produtores de O Chamado chega um suspense aterrorizante, O Mistério das Duas Irmãs. Desconfiando da morte suspeita de sua mãe, as irmãs Anna e Alex envolvem-se numa mortal batalha quando seu pai fica noivo de Rachel (a ex-enfermeira). À medida que investigam o questionável passado de Rachel, as duas irmãs entram em confronto com visões fantasmagóricas, pesadelos terríveis e consequências mortais.

Suspense, Terror
Paramount
22/09/2009
Inglês, Português,
Francês, Closed Caption
  

 
 

Em qualquer outro caso, a abordagem de O Mistério das Duas Irmãs – refilmagem do coreano Medo lançado há apenas seis anos – seria de suspeita, desaprovação e, finalmente, desgosto. Ao menos é que ocorre com 90% das refilmagens de filmes de terror orientais em Hollywood. Mas, volta e meia, podemos ser surpreendidos. O Mistério das Duas Irmãs não vai lhe deixar marcado, ou muito menos impressionado. É bem provável que a obra seja desmanchada de sua mente em curto período de tempo. Isto não evita, porém, que o filme denote, em um território assolado por refilmagens terríveis e filmes de terror medíocres, um interesse que vai além da mera convenção para articular virtudes mais embasadas no que o terror no sentido clássico da palavra tem a oferecer. Os cineastas confiam em seus personagens, na força do psicológico e na manipulação da linguagem cinematográfica e, com isto em mãos, articulam um decente filme do gênero que se torna entretenimento proveitoso diante da presença incontestável de valores perdidos.

Narrar a história do filme é um ato por si só temeroso. As complexidades que residem no enredo (oriundas do filme original, obviamente) não devem ser abordadas de formas leves e lineares. Entretanto, é necessário situar a audiência no centro da manipulação. O filme tem início com um sonho de Anna (Emily Browning) cercado de atmosfera, sustos e eventos trágicos. Logo cortamos para um hospital psiquiátrico, onde Anna está sendo tratada e atualmente narrando seu sonho para o médico. Sua mãe doente morreu numa explosão e ela não se lembra da noite do ocorrido. Ela tentou cometer suicídio, foi parar no hospital e entende que seus sonhos querem lhe comunicar algo. E então ela é dada alta, volta para casa com seu pai carinhoso e retoma a amizade com sua irmã. Logo, as irmãs começam a suspeitar de Rachel (Elizabeth Banks), a futura madrasta que esconde passado sombrio. É quando Anna começa a ser assombrada pelos seus sonhos.

O longa inicia-se com a nota certa. Um sonho interessante, seguido por uma análise psicológica deste e, logo depois, diálogos honestos entre seus personagens. E então a história lhe fisga. Aos poucos, o apego com a personagem de Anna é inevitável. Interpretada por Emily Browning de forma vulnerável e inocente, é exatamente o que a protagonista de um filme de terror teria que ser. As engrenagens do enredo começam a acelerar e é aí que o filme começa a passear por estradas habituais e corrosivas. Toda aquela situação de “garota que não é compreendida e começa a ser assombrada por fantasmas que querem ajuda” é algo passado e cansado. Os cineastas não se dão ao trabalho de compor estas idéias de formas mais criativas, acreditando muito no poder que o desfecho da obra terá para estes elementos. A questão é que nem sempre é o destino que importa, mas a jornada. O filme acerta na atmosfera, na belíssima trilha, na ótima fotografia e na utilização mínima de efeitos especiais, mas é infalível na hora de apostar em elementos usuais na composição do terror. Até a primeira hora de duração, o filme se situa na mera convenção. Ele se declara um terror sobrenatural, vez ou outra trabalha a complexidade de seus personagens mas quase sempre oscila o olhar mais astuto para o mais burocrático. E, nisso, a frivolidade do ato vem a tona. O terror é muito manjado para funcionar dignamente. Mas o drama humano e o suspense psicológico te deixam instigado e afim de conhecer qual fim terá está história tão estranhamente composta. E o desfecho é uma surpresa no melhor sentido da palavra. Traz consigo uma forte revira-volta e transforma o filme de então em um totalmente diferente. De repente, somos obrigados a perdoar falhas que apenas faziam parte da manipulação ilusória, mas ao mesmo tempo começamos a perceber furos e imperfeições. No fim das contas, o que mais importa é a força humana e psicológica que a história ganha, e o refresco que é testemunhar uma obra hollywoodiana retratar algo tão avesso ao gênero cansado de hoje em dia. E é aí que o filme ganha seu respeito.

É delicioso, ao fim da obra, analisar as questões psicológicas que cercam os personagens, suas reais intenções e o drama intenso que vivem. Mesmo que, de fato, os diretores (e o próprio roteiro) nunca realmente investem afundo nestas particularidades. A obra termina com mais ou menos noventa minutos de duração, e é inevitável imaginar um filme mais completo e maduro. Por ora, porém, basta. Tecnicamente, a obra satisfaz, ainda compondo cenas com movimentos de câmera sempre intrigantes. O elenco, por sua vez, é sempre proveitoso. Elizabeth Banks faz com que sua personagem equivocada ganhe estado de espírito e David Strathairn traz peso ao personagem do pai. O que temos, ao fim do filme, é uma obra que conseguiu reunir admirável número de virtudes em contraponto à falhas. E então nos tornamos mais aptos a entreolharmos estes tais defeitos para simplesmente apreciar o filme pelo o que ele é: entretenimento eficaz e levemente dignificado por valores escondidos entre pretensões óbvias. O que permanece contigo é a força humana do projeto, e isto é sempre bom (além de raro).

Trailers (antes do menu, legendados) "Watchmen: O Filme", "Transformers: A Vingança dos Derrotados", "Star Trek", "Eu Te Amo, Cara"

"Desvendando O Mistério das Duas Irmãs": Making of bastante interessante, especialmente para quem gostou do filme. Traz depoimentos do elenco, dos produtores e dos diretores, revelando detalhes da produção que vão deste o casting, a adaptação do roteiro e questões técnicas e narrativas. É recomendável apenas para quem assistiu ao filme, já que traz consigo inúmeros spoilers. (19:00)

Cenas Inéditas: Traz quatro cenas que foram deixadas de fora da versão final do filme. Fora a primeira cena, que é realmente digna, as outras são descartáveis e justificadamente cortadas. (5:40)

Final Alternativo: Um desfecho alternativo fraco e irrelevante para o filme, que muda a última cena definitiva que havia sido eficiente. Totalmente dispensável. (00:50)

Em boa edição da Paramount, O Mistério das Duas Irmãs chega às locadoras após um fraco rendimento em bilheteria com grande potencial para fazer sucesso. Refilmagem americana que, apesar de conter diversas falhas, não deixa de ser tensa e eficiente em sua proposta. A edição em DVD faz jus, com excelente imagem sem imperfeições e áudio em canais 5.1 sem ressalvas. Os extras vem acompanhados de um completo making of e de cenas alternativas. Locação garantida.
 
Por Wally Soares em 29/09/2009
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