Verão Violento(Estate Violenta)
Eleonora Rossi Drago, Jean-Louis Trintignant, Jacqueline Sassard, Cathia Caro, Lilla Brignone, Raf Mattioli, Enrico Maria Salerno
Valerio Zurlini
1959
França, Itália
103 minutos

Dando continuidade ao lançamento dos filmes do mestre Valerio Zurlini (A Moça com a Valise), um dos maiores diretores do cinema italiano, a Versátil apresenta a obra-prima Verão Violento em versão restaurada, com mais de uma hora de extras, incluindo entrevistas com amigos e colaboradores de Zurlini, como os cineastas Giuliano Montaldo e Florestano Vancini. Itália, verão de 1943. Em plena Segunda Guerra, jovens ricos e desocupados passam os dias na praia, sem se preocuparem com a turbulência política do país, que assiste aos últimos momentos do regime fascista de Benito Mussolini. Nesse cenário, um desses jovens, Carlo, se apaixona por Roberta, uma mulher mais velha que perdeu o marido na guerra. Começa um tórrido romance entre eles enquanto a Itália muda para sempre. Inédito em vídeo e DVD, Verão Violento é um filme extraordinário valorizado pela ótima interpretação do francês Jean Louis Trintignant (A Fraternidade é Vermelha) em início de carreira.

Drama
Versátil
05/06/2007
Português
 
 
 

Se o romancista francês Stendhal nascesse no século XX e fosse cineasta, creio que ele encarnaria nas mãos do realizador italiano Valério Zurlini. Toda a elegância estética stendhaliana está depositada em todas as imagens de Verão violento (Estate violenta; 1959), uma narrativa de fôlego clássico onde Zurlini exibe sua perícia para filmar os sentimentos mais sutis e ocultos de suas personagens; o rigor de composição dos gestos dos atores, a sinuosa conduta da câmara e a adequada justaposição dos cenários se vão convertendo, lenta e minuciosamente, numa linha de ação estética que acaba por deslumbrar o espectador. Mais do que no também italiano Luchino Visconti, é em Zurlini e em suas desorientadas histórias de amor que o espírito stendhaliano, novecentista e cheio de pudor, vai baixar. Pode-se dizer que Zurlini mistura Stendhal com o cineasta Michelangelo Antonioni; de Stendhal, uma nobreza ancestral; de Antonioni, uma opção pela alma das personagens, desbravada sutilmente.

Em Verão violento Zurlini vasculha, como faria depois em A moça com a valise (1960), um assunto stendhaliano: a incauta e arrebatadora aproximação que um jovem faz a uma mulher mais madura; isto remete ao romance O vermelho e o negro (1830), é claro, mas tudo é conduzido com aquele sabor cinematográfico inconfundível do cinema intelectual europeu das décadas de 50 e 60. Jean-Louis Trintgnant é o jovem militar que, vivendo meio deslocado com sua tristeza introspectiva entre os jovens alienados de sua geração, um belo dia é surpreendido por uma paixão nascida de sua visão de uma bela e misteriosa balzaqueana; Eleonora Rossi Drago, tão elegantemente bonita quanto secreta em suas subversões morais ao dar bola a um rapaz, e que foi vista na obra-prima As amigas (1955), de Antonioni, como uma das tensas mulheres burguesas antonionianas, é esta balzaqueana com quem Trintignant perfaz mais um dos grandes duetos interpretativos da história do cinema. A justaposição sentimental de Carlo e Roberta, os protagonistas da história de amor, é feita com lentidão e tato, um processo a que o espectador dos melodramas de hoje não está acostumado; sem pressa, Zurlini vai estabelecendo o passo a passo da relação dos dois. O ponto culminante desta sutileza de filmar os sentimentos está na longa e densa seqüência de dança, uma festa de jovens onde a madurona Roberta é inserida pelo desejo de Carlo; é ali, especialmente na aproximação recriminatória de Rosana, uma jovem interessada em Carlo, que o conflito moral e etário das personagens se personifica com uma carga dramática aguda.

Contando uma história de amor para além de qualquer meio social ou tempo histórico, Zurlini é inevitavelmente político e histórico em Verão violento. A cena final do bombardeio contra o trem, com as personagens centrais se desencontrando para se encontrarem no desencontro final ao fim das explosões, restaura a dimensão da época, a Europa de 1943, a guerra mundial e suas torpezas em andamento. Mas a guerra histórica é, também nas vidas de Carlo e Roberta, uma metáfora: a metáfora da impossibilidade amorosa num mundo assim. (Eron Fagundes)

Apresentação de Alfredo Sternheim – O crítico fala de sua experiência profissional de ter entrevistado o cineasta Zurlini em 1965, comentando suas opiniões e influências, em 8 minutos. Sternheim também faz uma análise das obras de Zurlini e a sua influência na história do cinema.

Trailer de Cinema

Entrevistas com Florestano Vancini (assistente de direção, 35 minutos), Riccardo Pazzaglia (compositor, 21 minutos), Eleonora Giorgi (atriz, 6 minutos) e Giuliano Montaldo (diretor, 20 minutos) – Todos dão importantes informações sobre o convívio com o cineasta, a experiência de ter conhecido e trabalhado, com várias informações curiosas e de bastidores.

Vida e Obra de Valerio Zurlini - São 11 telas com textos, uma bela biografia e sua filmografia completa.

Mais um lançamento bem oportuno, um reencontro com a obra de um importante Diretor que deixou sua marca na História do Cinema. O DVD está bem produzido tecnicamente, com ótima qualidade de imagem e áudio (falta, como sempre, uma dublagem). Os extras se resumem em depoimentos, todos eles importantes para se conhecer um pouco mais sobre Zurlini. Poderiam ser melhor ilustrados, ou seja, poderia ter um edição mais caprichada, com imagens dos filmes, de bastidores etc., mas dá um bom panorama do cineasta. Um DVD para cinéfilos, vale ser pelo menos assistido.
 
Por Edinho Pasquale em 05/07/2007
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